Antes tudo era escuridão. O
pequeno homo redesocialis, não conseguia
enxergar nada além de sua barra de rolamento vertical direita. Uma verdadeira
prisão quadrangular alienatária. Qualquer idéia que pudesse afastá-lo de seu
maquinário vital com entradas USB era visto como puro delírio passivo
esquizofrênico redundante. “Não existe vida fora do cubo mágico”, alguns
entoavam. “Respeite e curve-se perante o fruto proibido degustado”, enaltecia
outros. “Só a Rede trás a verdade!” vociferavam indolentemente todos, como um mantra
budista. A era de abstinência intelectual causada pelo o único e excessivo meio
de expressão passou a ser responsável por danos no córtex cerebral em
escalas nunca inimagináveis. Junto com a simbiose virtual, outro parasita se
aproveitara para se infiltrar e tomar vantagem da já debilitada mente do
hospedeiro, o nefasto Globolus
Vermelhiuns Pettista. Uma bactéria oportunista e manipuladora que se
alimenta essencialmente da força de vontade e criatividade do seu hospedeiro,
deixando-o em estado de zumbificação pasteurizada exaurindo-o até o ultimo
espasmo de digitação touch screen.![]() |
| O tirano rei de 19 dedos sorrindo para o povo |
Por quase duas longas décadas, o
planeta tupiniquim Brasil foi iluminado apenas pela inibidora e sonolenta luz
dos monitores, não se via ou ouvia falar de nenhuma manifestação nas ruas como
outrora. O povo esqueceu que muito antes de toda essa tecnologia viral se
infiltrar em nossas vidas, éramos seres pensantes livres, não precisávamos de
internet ou mesmo celular para colocar a massa nas ruas. “Manifestações” e “passeatas” foram palavras abolidas
do nosso vocabulário cotidiano por um tirano reeleito de 19 dedos e sua horda
de calhordas. Quando muito estávamos insatisfeitos, a Rede carinhosamente
perguntava: “No que você esta pensando?” Ali se regurgitava palavras de
desprezo e insatisfação por horas a fio para logo em seguida um súbito alivio
na consciência se transcender e uma estranha sensação de dever cumprido se
abrigar no peito por mais um silencioso tempo.
Chegava o tão aguardado
momento em que o tirano passaria a foice em frente, mesmo para ele, seria
difícil burlar uma lei federal interplanetária e se manter por três mandatos
consecutivos no poder. O ditador teria a árdua tarefa de encontrar alguém tão
inescrupuloso quanto, para substituí-lo e continuar com a escancarada e
salafrária ditadura de extração da vitalidade do seu eleitorado e seu esquecido
planeta onde canta o sabiá. O pobre planetinha Brasil paralisado e atrasado,
com uma fonte de recursos ilimitada, mas com um povo entretido com desejos
supérfluos demais para tomar alguma iniciativa reformuladora, permanecia inerte
quanto a tudo a sua volta.
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| Manifestantes fotografam a presidente em momentos íntimos |
A decisão é tomada, e a
população é levada a crer que fez a escolha mais sensata. O ser escolhido para
ficar no lugar do então ex-ditador, era mais um de seus asseclas fantoches, uma
guerrilheira robô com tamanha facilidade de assimilar o jeito de governar,
falar e pensar do seu antecessor, que durante alguns meses pensou-se em se
tratar de um clone. A nova rainha-presidente com sua bota espacial
tamanho 44, logo coloca em pratica a continuação dos maléficos planos de
extinguir a vida do cidadão brasileiro. Tudo ia muito bem, conforme o
planejado, o planeta-país nunca esteve em piores condições, escândalos de corrupção e miséria por toda parte, relatados mesmo que maquiadamente todos os dias. É declarada situação geral de calamidade e que o ultimo que saísse que batesse a porta. A usuária da bota espacial 44 só não contava com um pequeno
imprevisto, um porcentual pífio, perto de toda a população que vivia (e vive
até hoje) em transe, uma minoria que acidentalmente ou não, conseguiu se
desconectar por breves momentos e iniciar algo jamais visto nesta geração de sonâmbulos
catatônicos.
A origem do pandemônio continua
desconhecida, sabe-se que a cada dia se alastra aos quatro cantos do
planeta. Historias de usuários que conseguiram se libertar de seus cabos
conectores e começaram a usar as armas de controle mental contra o próprio sistema, são contadas todos os dias pela Rede. A Rede que antes servia apenas para
torpecer as mentes com alta concentração de morfina mental, agora serve como
base para esses pequenos grupos de manifestantes rebeldes, finalmente voltarem
as ruas e cada vez mais libertar outras mentes adormecidas.
To be continued...










