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A
imprensa esta de luto. Registros emocionados tomam conta dos canais abertos,
com direito a closer nas lagrimas dos desolados
jornalistas. Em uma das narrativas, a repórter se mostra incapaz de continuar a
gravação, mesmo assim a cena que deveria constar apenas nos bastidores, vai ao
ar. O Brasil inteiro chora comovido pela união da classe. Apesar do falecido
ser cinegrafista do canal Band de televisão, a rival, rede Globo, emissora líder de audiência no
Brasil – aquela que o brasileiro ama falar mal, mas é incapaz de deixá-la – não
teve como fugir da divulgação extra-gratuita para a concorrente dessa vez.
Devem ter lamentado não ter sido um cinegrafista da casa.
Vivemos
uma conduta massificada perniciosa. O protótipo de cidadão, então se sente
injustiçado, ludibriado, sedento a procura de um alvo. Um único culpado. A
culpa é de quem? Na caçada por um réu, encontraram um manifestante retumbante pelo caminho das fitas gravadas, para em seguida ser levado e pregado em sua cruz particular, representando assim,
uma espécie de Jesus Cheguevariano, que mais uma vez, morre pelos pecados da
humanidade. Ele é culpado? Sim, com todas as letras, existem provas que o
acusado foi o responsável direto pela morte do cinegrafista. Para o Brasil,
certamente o caso chega ao seu derradeiro fim. Culpado preso, problema
resolvido. Rápido e limpo, sem marcas ou
cicatrizes. Para dar tempo de voltar cedo e ver o Big Brother Brasil.
Será
exagero dizer que todos nós possuímos uma espécie de alienação moral carnista? Uma
fácil dissociação psicológica e moral entre produto e origem. Imprudente? Se
pararmos para pensar sobre os efeitos dessa lógica, e montarmos uma breve analogia
ao caso, a raiz de todo o problema não será encontrada apenas na pessoa que
soltou o rojão, acendeu ou comprou. Pense
mais um pouco, caro ser pensante livre, de quem mais seria a culpa? Sim, isso
mesmo, seria nossa, a individualista sociedade mecanicista.
"A
classe jornalista se uniu para fazer uma bonita manifestação em memória do
cinegrafista em Curitiba". "Lula lamenta pela morte do cinegrafista
Santiago Andrade". "A ONU condenou o manifestante e se
mostra preocupada com a violência nas manifestações no Brasil". Estas
e mais umas centenas de milhares de arrobas de manchetes, matérias e
comentários pipocam desse audaz vespeiro brasileiro chamado
internet. E é só, para por ai, é com essa superficialidade que tratamos
nossos problemas por aqui. Essa é a maneira mais fácil, ágil e barata para
resolvermos. O problema continua sendo o de sempre, sabe aquelas coisas que o
seu avô, gritava por mudança? Aquele utópico estado político ideal, que apenas
se viu até hoje, na obra prima de Platão? Por que a nossa atual presidente e seu extenso
governo, não tomam uma verdadeira medida a respeito? Impossível, surreal ou
falta de interesse?
A
resposta para todos os nossos problemas sempre foi e será a base da educação e
suas ramificações básicas. Enquanto, esse dinheiro não for investido de forma consciente,
clara e certa para o seu destino, sem estradas tortuosas, cheias de desvios,
chegando assim migalhas para o que realmente interessa, continuaremos burros e
famintos. Um exemplo? E se todo esse dinheiro da Copa do Mundo fosse investido
em educação pública?
Ao passo
que estivermos mais empolgados com a Copa, do que com a própria educação,
continuaremos culpando apenas os produtos resultantes dessa massa desgovernada
e pronta para explodir, chamada Brasil. No tempo em que preferirmos algumas
horas de diversão dispensável, ao invés da profissionalização de nossos
educadores, continuaremos a ver cenas que dão vergonha alheia. Piada no mundo inteiro. Enquanto acharmos graça de vídeos que circulam por WhatsApp e
Youtube, com alunos brigando em sala de aula, e professoras agindo naturalmente sem
saber o que fazer no meio do olho do furacão – licença tia, ta
filmando! – ou em um país onde os responsáveis por moldar mentes, estão preocupados com as vestimentas de um cidadão no aeroporto – aeroporto ou rodoviária?
– não é de se admirar que estejam tão despreparados e desamparados, não
entendendo assim seus direitos e deveres. Tudo esta tão errado, perdido e em
queda livre, que o niilismo ativo de Nietzsche, nesta altura da vida se torna uma
mão de via única.
Em novembro
do ano passado meu pai veio a falecer de um ataque cardíaco fulminante, era véspera
de seu aniversario de 65 anos. Foi com
ele que tive meu primeiro contato com a política. Ele acreditava fielmente que
o nosso país iria mudar. Matogrossense nativo, mas formado em Brasília,
participou de diversas manifestações nos seus tempos de faculdade. Sonhava
com dias utópicos de igualdade. Morreu, deixando dois filhos e
esposa. Partiu sem deslumbrar os dias melhores do nosso país. Se nada começar a se transformar de verdade, assim serei eu,
você e seus filhos. Não existem libertadores, o povo liberta a si mesmo.
***
"Se os fins justificam os meios, o que justifica os fins?"
Segundo Leon Trótski, o fim por si só é um meio para outro fim. Qualquer fim é
justificado se ele é por si só um meio de atingir o poder maior do homem sobre
a natureza e a abolição do poder do homem sobre o homem. Trocando em miúdos, o
fim pode, em si mesmo, ser visto como o meio para esse fim definitivo.
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