Eu não tenho problemas, você tem problemas, o sistema tem problemas. Você quer a verdade? Você quer a verdade? Não suportaria a verdade! Porque quando você procurar e não conseguir encontrar um pouco de carinho no que era o seu melhor amigo, entendera o que fazer. Esqueça Margie, isso é Chinatown.

As piramides que nao estao no egito!

Ontem o meu dia foi marcado pela apoteótica descoberta do movimento que rege essas arapucas com esquemas pirâmides. Pude estar presente e ver a fundo o que realmente são e como agem para deslumbrar o cidadão desorientado. Já havia sido chamado para diversos outros empreendimentos que prometiam a garantia de vida boa e ganhos fáceis. Sempre se autodenominam “únicos”. Nunca há nada no mercado financeiro parecido. Roupagens diferentes com talvez ideologias diferentes, mas com o mesmo intuito, captar, melhor dizer, caçar novas presas para alimentar a cada vez crescente base da cadeia dos “futuros milionários”.
O povo brasileiro não esta acostumado com educação, gentileza e bom atendimento. Isso surpreende de cara aos desavisados e talvez até desesperados. A recepção é “grandiosa”. “Seja bem vindo, muito obrigado por você estar aqui hoje”. “Palmas para o nosso futuro iniciado”. De cara você se sente acolhido por aquele povo treinado para te agradar. “Você aceita, uma água ou talvez um café?”. Depois de uma pequena sabatina na entrada, onde o que realmente interessa é saber se é a sua primeira vez no evento, eles te arrastam para a primeira fileira, a frente da trincheira com outros virgens.  Enquanto aguardam o salão de recepção encher, em um telão passam vídeos engraçadinhos, vídeo-cassetadas, tudo para passar a sensação de bem estar. “Sinta-se em casa”, ou para alguns, “Aqui conosco você esta melhor do que em sua própria casa, somos sua nova família”.
Com meia hora de atraso do que haviam prometido começar, entra um senhor de 69 anos. O palestrante do dia. Vindo de fora, com dinheiro pago pela própria empresa, para dar seu “testemunho”. Sem perder tempo, entre piadinhas a la stand up e outros gracejos, dispara seu repertorio, sua triste historia de vida, tudo bem persuadido e redondinho, sem emendas. Algumas lagrimas são derramadas e tenho a impressão de ter ouvido um aleluia baixinho ao meu lado.

Em cinco minutos de palestra, questiono o ceifeiro à minha frente. Com uma enxurrada de indagações bato de frente com aquela muralha que se diz tão solida, contra dizendo-o sobre educação e busca de conhecimento. Ele teimava em afirmar que a educação era um sistema invalido para o crescimento financeiro da vida de todos, com uma formula matemática de sua autoria, ele tenta inserir na mente dos cidadãos ali presentes a ideia que você nunca conseguira montar uma empresa, porque as faculdades não te oferecem esse ensino, não existe um meio de encontrar esse conhecimento. Com a experiência que tenho de vida, herdada pelos meus pais, continuo a questiona-lo, dando o credito para meus genitores que começaram uma empresa há 20 anos, com pouquíssimo conhecimento da área e até hoje prosperam, com muita garra e suor, aprenderam com seus erros e acertos, e claro a busca do conhecimento aprofundado ao longo dos anos. Assim como tudo deve ser. O ancião tenta me calar com piadinhas de fácil entendimento popular. Onde, insisti em passar em frente, a ideologia que trabalho duro não vale a pena. Com uma manobra ensaiada, a equipe do empreendedor batem palmas, para cada palavra vociferada do palestrante. Tentando assim me calar.
Em meia hora de palestra consegue-se notar quais os retrospectos que a “família” empreendedora usa para te pescar. Fragilidade, todos que estão ali parecem estar realmente em busca de algo maior, mas o desejam da maneira mais fácil. Pais de família que não tiveram uma estrutura educacional e emocional para encarar a vida, se rendem facilmente aos encantos de uma nova oportunidade, onde apenas vantagens parecem existir.
Egolatria, se não fosse suficiente a promessa de salários de 300.000 mil reais, o ego do iniciado é abastecido com uma capa de revista da franquia de mesmo nome, rodando internamente o Brasil todo, com promessas de coquetéis, onde será ovacionado por mais de 2.000 pessoas. Quem não se renderia há tantos caprichos? Capas de revistas, pessoas gritando seu nome e confetes? Dinheiro, fama e status, o típico sonho rockstar. A plateia vai ao delírio. O Liminha da empresa puxa mais um turbilhão de palmas.
Redenção são pedidos para subirem ao palco enfileirados e classificados aqueles que tem mais “seguidores” na rede do empreendimento. Delta reds, alguma coisa assim. Tudo bem estereotipado. Sobem no meio de palmas e gritos de “uhuu”, pedreiros, sorveteiros, vendedores de rede, donas de casa. Sem desmerecimento algum, todo o trabalho tem seu valor, mas não tem como negar o fator informação, estrutura de conhecimento, todos ali presentes eram iscas fáceis e sugestivas de manipulação. Você os culparia? Com promessas de seguro de vida de 200.000 reais, após trinta dias de contrato assinado, caso você morra e outros direitos surreais, quem não se entregaria em êxtase? Mas o fator definitivo, nenhum veterano ali naquela sala ganhava 300.000 mil reais, nem 5% disso.
Na reta final da palestra, já recebia alguns olhares intimidadores, não apenas do palestrante – tinha a sensação que seria pedida a minha retirada a qualquer momento – como de algumas pessoas já convertidas. Depois de uma rápida explicação sobre o processo, e a tabela de valores a serem pagos, guardo a minha ultima pergunta, o que seria o gran finale, depois de passar quase duas horas descordando irreversivelmente do “divertido” palestrante. “Eu entendo que a empresa de vocês funcione com o velho esquema conhecido como pirâmide, mas o que difere vocês do telexfree, tirando a ideologia do “seja bem vindo só aceitamos pessoas do bem”?”. Essa pergunta foi como um tiro de prata em um lobisomem. Por um instante, a euforia tem fim, e o semblante do idoso muda, e lá vamos nós para mais explicações superficiais recheadas de piadinhas ofensivas. Ele desenha em um quadro, o esquema de pirâmide mais conhecido, e que realmente sua empresa parece fugir, mas não explica o fundamento real de seus ganhos e a segurança de deles. Mais uma vez discordo e faço um contra argumento, ele então entra no mérito que a empresa que trabalha, tem mais de 18 anos de vida, e me desafia a encontrar UMA reclamação, e se compara com empresas do poste da VIVO, CELPA, COSANPA, etc. Aposta que pagaria mil reais para cada reclamação que eu encontrasse de sua empresa contra um real de cada reclamação no PROCON da CELPA. Mais gritos e palmas. Sou o vilão da palestra, já entendi. Mas pergunto, colocando-o em xeque. “Quantas pessoas fazem parte da carteira de vocês, quantos fazem parte desse empreendimento de sucesso?” A resposta vem tímida, 60.000 pessoas por todo o Brasil. Em meu rosto abre um sorriso arrogante, confesso e disparo: “Você quer comparar 60.000 pessoas contra mais de um milhão que vivem só em Belém e usufruem da RedeCelpa por exemplo? Com gato espalhado para todo o lado, problemas que vão alem de conhecimento público e uma empresa que já tem mais de cinco vezes a idade da tua empresa? Não tem como comparar”. Evidente, que ele não deixaria barato. Sou silenciado por mais um punhado de piadinhas e mais uma torrencial chuva de palmas, puxadas pelo Liminha da equipe. Lembrando que o palestrante, tinha mais de sete anos de trabalho, e tinha 1.170 “seguidores” e ainda também não recebia esses 300.000, afinal de contas quem ganha essa porra?
O velho da mais uma olhada no relógio, era chegada a hora, o “culto” tinha que encerrar depois de um jovem casal dar seu testemunho de como a vida estava maravilhosa, e sua esposa falar que era o melhor investimento para a mulher. O funcionamento é o mesmo de uma seita. Era a hora dos virgens, sentados a frente caírem para o abate ou aceitarem Jesus. O ceifeiro, sabiamente, pulou minha vez, e começou a “arrematar” o seu rebanho. A pressão psicológica é gigantesca. “Você não deseja entrar? Não?! Só pode haver duas explicações, ou você não entendeu nada, ou sobrou alguma duvida! Estou aqui para tirar todas as suas duvidas! Você não deseja ganhar 300.000 reais?!” Questiona o pseudo-pastor-financeiro. “SIM, eu aceito!” Pode abrir o contrato, você deseja pagar como? Cartão, Boleto ou cheque? Parabéns você é mais um futuro empreendedor de sucesso, sua família agradece você por ter pensado nela em primeiro lugar. Palmas para ele. A palestra termina com talvez 10 no  novos iniciados na “seita econômica bem sucedida”.
Enquanto caminho pelo salão, os olhares são de reprovação. Com a cabeça erguida e um sorriso sarcástico satisfeito deixo as trincheiras do “inimigo”. Mas talvez em um último golpe, uma ultima tentativa desesperada, sou abordado por um dos missionários que abre uma pasta com uma foto, de um cara com um daqueles cheques de programa de auditório no valor de 300.000 reais. “Você não gostaria de ter esse valor na sua renda?” Pergunto o seu nome com toda a educação que ainda me resta, e explico cuidadosamente meu ponto de vista sobre toda aquela orgia financeira e a manipulação consistente nesse tipo de investimento. Com um bônus track faço uma rápida analogia sobre o mito da caverna de Platão e a empresa que ele trabalha. Dou um caloroso boa noite e volto satisfeito pela experiência.