Ontem o meu
dia foi marcado pela apoteótica descoberta do movimento que rege essas arapucas
com esquemas pirâmides. Pude estar presente e ver a fundo o que realmente são e
como agem para deslumbrar o cidadão desorientado. Já havia sido chamado para
diversos outros empreendimentos que prometiam a garantia de vida boa e ganhos fáceis.
Sempre se autodenominam “únicos”. Nunca há nada no mercado financeiro parecido.
Roupagens diferentes com talvez ideologias diferentes, mas com o mesmo intuito,
captar, melhor dizer, caçar novas presas para alimentar a cada vez crescente
base da cadeia dos “futuros milionários”.
O povo brasileiro não esta acostumado com
educação, gentileza e bom atendimento. Isso surpreende de cara aos desavisados
e talvez até desesperados. A recepção é “grandiosa”. “Seja bem vindo, muito
obrigado por você estar aqui hoje”. “Palmas para o nosso futuro iniciado”. De
cara você se sente acolhido por aquele povo treinado para te agradar. “Você
aceita, uma água ou talvez um café?”. Depois de uma pequena sabatina na entrada,
onde o que realmente interessa é saber se é a sua primeira vez no evento, eles te
arrastam para a primeira fileira, a frente da trincheira com outros virgens. Enquanto aguardam o salão de recepção encher,
em um telão passam vídeos engraçadinhos, vídeo-cassetadas, tudo para passar a sensação
de bem estar. “Sinta-se em casa”, ou para alguns, “Aqui conosco você esta
melhor do que em sua própria casa, somos sua nova família”.
Com meia hora
de atraso do que haviam prometido começar, entra um senhor de 69 anos. O
palestrante do dia. Vindo de fora, com dinheiro pago pela própria empresa, para
dar seu “testemunho”. Sem perder tempo, entre piadinhas a la stand up e outros gracejos, dispara seu repertorio, sua triste
historia de vida, tudo bem persuadido e redondinho, sem emendas. Algumas
lagrimas são derramadas e tenho a impressão de ter ouvido um aleluia baixinho
ao meu lado.
Em cinco
minutos de palestra, questiono o ceifeiro à minha frente. Com uma enxurrada de
indagações bato de frente com aquela muralha que se diz tão solida, contra
dizendo-o sobre educação e busca de
conhecimento. Ele teimava em afirmar que a educação era um sistema invalido
para o crescimento financeiro da vida de todos, com uma formula matemática de
sua autoria, ele tenta inserir na mente dos cidadãos ali presentes a ideia que você
nunca conseguira montar uma empresa, porque as faculdades não te
oferecem esse ensino, não existe um meio de encontrar esse conhecimento. Com a experiência
que tenho de vida, herdada pelos meus pais, continuo a questiona-lo, dando o
credito para meus genitores que começaram uma empresa há 20 anos, com pouquíssimo
conhecimento da área e até hoje prosperam, com muita garra e suor, aprenderam
com seus erros e acertos, e claro a busca do conhecimento aprofundado ao longo
dos anos. Assim como tudo deve ser. O ancião tenta me calar com piadinhas de fácil
entendimento popular. Onde, insisti em passar em frente, a ideologia que
trabalho duro não vale a pena. Com uma manobra ensaiada, a equipe do
empreendedor batem palmas, para cada palavra vociferada do palestrante. Tentando
assim me calar.
Em meia hora
de palestra consegue-se notar quais os retrospectos que a “família” empreendedora
usa para te pescar. Fragilidade,
todos que estão ali parecem estar realmente em busca de algo maior, mas o
desejam da maneira mais fácil. Pais de família que não tiveram uma estrutura
educacional e emocional para encarar a vida, se rendem facilmente aos encantos
de uma nova oportunidade, onde apenas vantagens parecem existir.
Egolatria, se não fosse suficiente a
promessa de salários de 300.000 mil reais, o ego do iniciado é abastecido com
uma capa de revista da franquia de mesmo nome, rodando internamente o Brasil
todo, com promessas de coquetéis, onde será ovacionado por mais de 2.000
pessoas. Quem não se renderia há tantos caprichos? Capas de revistas, pessoas
gritando seu nome e confetes? Dinheiro, fama e status, o típico sonho rockstar.
A plateia vai ao delírio. O Liminha da empresa puxa mais um turbilhão de
palmas.
Redenção são pedidos para subirem ao
palco enfileirados e classificados aqueles que tem mais “seguidores” na rede do
empreendimento. Delta reds, alguma
coisa assim. Tudo bem estereotipado. Sobem no meio de palmas e gritos de “uhuu”,
pedreiros, sorveteiros, vendedores de rede, donas de casa. Sem desmerecimento
algum, todo o trabalho tem seu valor, mas não tem como negar o fator informação,
estrutura de conhecimento, todos ali presentes eram iscas fáceis e sugestivas
de manipulação. Você os culparia? Com promessas de seguro de vida de 200.000
reais, após trinta dias de contrato assinado, caso você morra e outros direitos
surreais, quem não se entregaria em êxtase? Mas o fator definitivo, nenhum
veterano ali naquela sala ganhava 300.000 mil reais, nem 5% disso.
Na reta final
da palestra, já recebia alguns olhares intimidadores, não apenas do palestrante
– tinha a sensação que seria pedida a minha retirada a qualquer momento – como de
algumas pessoas já convertidas. Depois de uma rápida explicação sobre o
processo, e a tabela de valores a serem pagos, guardo a minha ultima pergunta,
o que seria o gran finale, depois de
passar quase duas horas descordando irreversivelmente do “divertido”
palestrante. “Eu entendo que a empresa de vocês funcione com o velho esquema
conhecido como pirâmide, mas o que difere vocês do telexfree, tirando a ideologia do “seja bem vindo só aceitamos
pessoas do bem”?”. Essa pergunta foi como um tiro de prata em um lobisomem. Por
um instante, a euforia tem fim, e o semblante do idoso muda, e lá vamos nós
para mais explicações superficiais recheadas de piadinhas ofensivas. Ele
desenha em um quadro, o esquema de pirâmide mais conhecido, e que realmente sua
empresa parece fugir, mas não explica o fundamento real de seus ganhos e a
segurança de deles. Mais uma vez discordo e faço um contra argumento, ele então
entra no mérito que a empresa que trabalha, tem mais de 18 anos de vida, e me
desafia a encontrar UMA reclamação, e se compara com empresas do poste da VIVO,
CELPA, COSANPA, etc. Aposta que pagaria mil reais para cada reclamação que eu encontrasse
de sua empresa contra um real de cada reclamação no PROCON da CELPA. Mais
gritos e palmas. Sou o vilão da palestra, já entendi. Mas pergunto, colocando-o
em xeque. “Quantas pessoas fazem
parte da carteira de vocês, quantos fazem parte desse empreendimento de
sucesso?” A resposta vem tímida, 60.000 pessoas por todo o Brasil. Em meu rosto
abre um sorriso arrogante, confesso e disparo: “Você quer comparar 60.000
pessoas contra mais de um milhão que vivem só em Belém e usufruem da RedeCelpa
por exemplo? Com gato espalhado para todo o lado, problemas que vão alem de
conhecimento público e uma empresa que já tem mais de cinco vezes a idade da
tua empresa? Não tem como comparar”. Evidente, que ele não deixaria barato. Sou
silenciado por mais um punhado de piadinhas e mais uma torrencial chuva de
palmas, puxadas pelo Liminha da equipe. Lembrando que o palestrante, tinha mais
de sete anos de trabalho, e tinha 1.170 “seguidores” e ainda também não recebia
esses 300.000, afinal de contas quem ganha essa porra?
O velho da mais
uma olhada no relógio, era chegada a hora, o “culto” tinha que encerrar depois
de um jovem casal dar seu testemunho de como a vida estava maravilhosa, e sua
esposa falar que era o melhor investimento para a mulher. O funcionamento é o
mesmo de uma seita. Era a hora dos virgens, sentados a frente caírem para o
abate ou aceitarem Jesus. O ceifeiro, sabiamente, pulou minha vez, e começou a “arrematar”
o seu rebanho. A pressão psicológica é gigantesca. “Você não deseja entrar? Não?!
Só pode haver duas explicações, ou você não entendeu nada, ou sobrou alguma
duvida! Estou aqui para tirar todas as suas duvidas! Você não deseja ganhar
300.000 reais?!” Questiona o pseudo-pastor-financeiro. “SIM, eu aceito!” Pode
abrir o contrato, você deseja pagar como? Cartão, Boleto ou cheque? Parabéns você
é mais um futuro empreendedor de sucesso, sua família agradece você por ter
pensado nela em primeiro lugar. Palmas para ele. A palestra termina com talvez
10 no novos iniciados na “seita econômica
bem sucedida”.
Enquanto
caminho pelo salão, os olhares são de reprovação. Com a cabeça erguida e um
sorriso sarcástico satisfeito deixo as trincheiras do “inimigo”. Mas talvez em
um último golpe, uma ultima tentativa desesperada, sou abordado por um dos missionários
que abre uma pasta com uma foto, de um cara com um daqueles cheques de programa
de auditório no valor de 300.000 reais. “Você não gostaria de ter esse valor na
sua renda?” Pergunto o seu nome com toda a educação que ainda me resta, e
explico cuidadosamente meu ponto de vista sobre toda aquela orgia financeira e
a manipulação consistente nesse tipo de investimento. Com um bônus track faço uma rápida analogia
sobre o mito da caverna de Platão e a empresa que ele trabalha. Dou um caloroso boa noite e volto satisfeito pela experiência.